Cinema e Psicanálise

06 Março, 2010

O fabuloso destino de Amelie Poulin

Podemos iniciar esta analise comentando o titulo do filme. O fabuloso destino de Amelie Poulin. Num primeiro momento pensei que realmente a vida de Amelie sofre transformações e o final do filme é fabuloso, temos a protagonista muito feliz e realizada com seu amor Nino. Então nesta primeira perspectiva o fabuloso destino de A. P. teria como sentido a questão de um desenrolar grandioso, entusiasmante, belo. Num segundo momento pensei em fabuloso como proveniente de fábula, fantasia, imaginação. E é ai que entramos no cerne da personalidade desta adorável e enigmática personagem. Amelie é uma moça com serias dificuldades de vinculação, afetividade e entrega. Porém, em sua vida de fantasia tudo é possível, e tudo realmente acontece. O problema é que “tudo”que deve e precisa acontecer fica somente no mundo de fantasia e fábula, ou seja, na imaginação de Amelie.
O narrador do filme, aí também outro aspecto das fábulas, alguém que conta a estória, descreve vários fatos simultâneos (uns cotidianos e outros muito importantes), particularidades das pessoas, seus hábitos mais íntimos e excêntricos. Fala também sobre as situações da vida, da morte e das trivialidades do cotidiano. Interessante notar que neste descrever o narrador vai implicitamente nos colocando a idéia de subjetividade.
Amelie foi uma criança solitária, brincava sozinha, utilizava intensamente sua imaginação e fantasia (até como um recurso contra um possível vazio e depressão). Curiosa, criativa, sublimava suas necessidades de contato e afeto imaginando, criando hipóteses que a auxiliavam a dar sentido ao mundo que a rodeava.
O pai de Amelie parece desafetado, robótico, distante e com marcante personalidade obsessiva. Após a morte da esposa essas características intensificam-se e o pai torna-se ainda mais desconectado do mundo externo e de Amelie.
A mãe, uma mulher nervosa, áspera, incontinente. Também com muitas dificuldades em conectar-se afetivamente, perceber e atender as necessidades emocionais da filha.
Amelie ganha de presente da mãe uma maquina fotográfica. Sentindo-se muito gratificada passa a registrar o mundo a sua volta. É sua maneira de se ligar a esse mundo, uma forma primitiva de contato, onde a necessidade concreta da ligação ainda é premente (precisa registrar tudo em fotos, senão corre o risco de não reter a experiência afetiva). Assim estabelece com a realidade uma relação ativa, fotografando e explorando o ambiente. O acidente de carro pelo qual é indevidamente culpada a faz frear sua atividade, curiosidade e exploração. É como se sentisse que a atividade, o estar viva no mundo e interagir com este fosse altamente perigoso e de conseqüências catastróficas (interessante a cena onde ela assista a TV e fica aterrorizada ao ver todas as catástrofes que sua “maquina” causou).
A perda da mãe ocorreu de forma traumática. O trauma é proveniente do fator surpresa da situação (a mãe é esmagada por uma suicida) e do excesso de estímulos que a mente precisa dar conta e elaborar. Amelie ainda é muito imatura para conseguir discernir uma situação onde mundo interno e externo se confundem, onde a fantasia e a realidade ainda são muito misturadas. Assim, antes da mãe ser morta elas estavam dentro da igreja para que Amelie ganhasse um irmãozinho. Sabemos como as crianças são ambivalentes em relação aos irmãos, e as fantasias agressivas que são dirigidas em relação ao bebê, a mãe, e também ao pai. Este fator pode ter contribuído para agravar a elaboração da morte da mãe por Amelie. Instalando um possível sentimento de culpa inconsciente pelas fantasias agressivas. Sabemos que o sentimento de culpa é um poderoso inibidor de toda atividade pulsional. Penso que parte da paralisação e retraimento da protagonista possui relação com esses fatos de sua historia de vida. Sua experiência emocional significou psiquicamente que as relações, o sentir e o expressar são altamente perigosos e geradores de conseqüências dramáticas e dolorosas. Uma solução de compromisso para tal significado e conflito seria então o que a protagonista fez: paralisa-se a vida emocional, congela-se os afetos e assim ninguém corre risco, nem ela mesma, nem os outros.
Bem, após a morte de sua mãe, Amelie intensifica ainda mais suas características esquizóides. Passando a se comportar como um autômato, com poucas expressões espontâneas e quase nenhuma ligação com outras pessoas.
Amelie gosta de observar os outros, se interessa sobre suas vidas. Existe um aspecto voyerista na personagem. Viver a vida alheia é mais interessante e oferece menos riscos do que viver a própria. Olhando predominantemente para fora ela se evade de olhar para si mesma, pois isso seria desalentador.
É interessante que ela experimenta a emoção através do outro. Tanto o amor, a gratificação, a excitação sexual como a raiva e o medo. É um tipo de identificação projetiva exitosa, porque a personagem cinde (separa dentro de si) uma parte do próprio eu (neste caso a capacidade de sentir e os conseqüentes afetos) e mobiliza o outro para que ele sinta o que ela ainda não pode sentir. É claro que este mecanismo de defesa embora defenda o ego dos perigos das emoções também esvazia a experiência na medida de que retira a afetividade e o sentido da própria vida.
O autômato é aquele que não consegue se conectar ao próprio mundo interno, tampouco ao externo e as pessoas. Amelie funciona de forma automata, sendo isso representado nos seus comportamentos e inclusive facialmente. Amelie tem uma expressão artificial, parece uma boneca de cera.
O personagem do homem de vidro é interessantíssimo. Ele representa a parte esquizóide de Amelie que sofre, é frágil e se fecha num mundo próprio, tendo a vida conseqüentemente empobrecida. É um talentoso artista, mas que não cria e sim reproduz, copia (de forma belíssima, é verdade) os quadros de um genial pintor (Renoir). Desta maneira pinta as festas, a vida, o movimento, mas não vive a festa, a vida, tampouco se movimenta. Tem um esqueleto de vidro (uma mente que de tão frágil pode quebrar-se?). Não possui constituição física nem mental para enfrentar a vida e a realidade (com seus inevitáveis percalços).
É bonito o desenrolar do filme onde ele e Amelie vão, um através do outro, experimentando como poderia ser viver diferente, livre, sem medo. No final do filme o homem de vidro pinta um quadro diferente, original, uma criação sua. O desenvolvimento da personalidade culmina numa existência mais autêntica verdadeira e livre. O homem saudável é aquele que, levando em consideração a sua constituição, pode ser o que é.
A transformação de Amelie se inicia no dia da morte da princesa. Penso a princesa como a parte infantil, fantasiosa e esquizóide de Amelie (afinal princesas vivem em castelos, protegidas e isoladas do mundo!). Ela encontra a caixa (como se fosse o tesouro, o potencial, o inconsciente, a parte cindida de sua própria personalidade) e decide ajudar os outros a partir de então. Este movimento é um pretexto para sair do isolamento, ainda que a razão para isso precise estar no outro (novamente aqui a identificação projetiva).
É preciso enfrentar o medo, sair do conhecido, do estável para crescer. A cena final que Amelie passeia de moto por Paris junto com Nino, expressa esta idéia do movimento da vida e da ligação entre as pessoas. Neste momento reparamos como a expressão facial e o sorriso da protagonista se humaniza e ela pode experimentar emocionalmente o que significa sentir-se viva.
Patrícia Turtelli Maronezi
Rua Maria José, 5-36, Bauru, SP
Fone: (14) 3018-9348/ (14) 3227-6558

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Camille Claudel

Neste belíssimo e biográfico filme podemos conhecer melhor a vida e a obra desses geniais artistas que foram August Rodin e Camille Claudel, e também acompanhar o frutífero, porém conturbado envolvimento amoroso entre ambos.
Já no início do filme vemos uma Camille passional, impulsiva e de comportamento confrontador. Apresenta uma relação de profundo envolvimento com suas esculturas, a despeito de um distanciamento da realidade. Após conhecer Rodin e se apaixonar por ele percebemos que também se vincula com este de forma intensa, dramática, desesperadora e vital.
A beleza do filme está na modelagem das esculturas, na lida de Camille e Rodin com a matéria-prima (barro, mármore) e obviamente na intensidade da paixão que ambos sucumbem. Interessante notar que Camille mostra-se uma mulher fisicamente forte, cheia de idéias e criatividade. O filme a mostra carregando peças de mármore e as esculpindo e fica evidente a força física e a motivação intensa da artista. Pensei a respeito da pulsão de vida, que liga, constrói, cria. Camille aplica na sua arte essa pulsão vital e como resultado temos hoje suas belíssimas esculturas.
A relação familiar de Camille é conturbada. Muito ligada ao pai e ao irmão, Paul. No entanto, tem uma relação distante com a mãe severa que a critíca e denigre. O pai lhe faz os gostos a contragosto da mãe, o que podemos pensar numa aliança fora de lugar do pai com Camille. Quando ela se envolve com Rodin parece procurar também este tipo de aliança, já que Rodin é casado e cerca de 20 anos mais velho do que ela. É o triangulo edípico revivido fora da família. Assim, Camille não pode ocupar um lugar que lhe seja seu por direito, e fica a rivalizar ora com a própria mãe, ora com a mulher de Rodin, Rose. Digno de nota que a mãe de Camille tinha perdido um filho antes dela e que esperava que Camille fosse um menino.
A paixão de Camille e Rodin é do tipo narcísico, onde um se encontra no outro e se abastece de suas qualidades. Por esse motivo a separação é tão dolorosa e impossível de ser elaborada. Perder o outro significa perder uma parte do próprio Eu. Rodin encanta-se com ela, com sua personalidade apaixonada, com sua beleza e jovialidade (tudo que ele já foi um dia). Ela ama Rodin como um pai erotizado e que ao mesmo tempo a protege.
Desde o principio a relação já emite sinais de problemas futuros. Camille, antes de se entregar a Rodin, diz que se mataria se sofresse uma desilusão amorosa. E Rodin por sua vez é conhecido por suas conquistas e pela devastação emocional que causa nas mulheres quando as abandona. Portanto, estão jogadas as fichas do futuro bombástico de ambos. Porém, esses sinais são negados e a relação segue adiante. Podemos pensar que a capacidade pensante de Rodin e Camille está temporariamente prejudicada. Estão guiados pela pulsão, desejo e diria também pela parte destrutiva da mente. Haja visto todas as complicações que a relação estava trazendo. Quando a pessoa está sendo guiada pela parte da personalidade que não consegue pensar e que tende a descarga, atuação e ausência de repressão percebemos a dificuldade de contato com a realidade e a total desconsideração pelas regras e pelo outro.
A gravidez e o conseqüente aborto de Camille trazem a história um fator traumático que compreendo, ajuda a desencadear a loucura da personagem. Quando perde Rodin e o bebê que espera dele é como se perdesse a força vital que a liga a vida, no desenvolvimento e na autopreservação. Camille começa um processo autodestrutivo intenso, onde bebe, quebra suas esculturas, discute com colegas de trabalho, desperdiça chances valiosas de se fazer uma escultora conhecida. É claro que a dor que vivia foi em parte transformada em arte. Mas não sendo canal suficiente a personagem foi emocionalmente morrendo e perdendo-se.
Instala-se um ciclo vicioso onde a personagem delira, se destrói, depois se culpa, se envergonha, mas sentindo-se esmagada pela desesperança não consegue transformar sua dor em aprendizado. O oposto disso transforma sua dor em mais dor.
Podemos conjecturar que Camille apesar de toda genialidade e talento, não teve força egóica suficiente para lutar contra o lado destrutivo de sua própria mente. Não sendo capaz de elaborar o luto por suas perdas e de canalizar sua energia psíquica em outras direções, ela continua obsessivamente a sofrer por Rodin e pelo passado. Penso que a saúde está ligada diretamente a capacidade de transformar as experiências e de aprender com elas. Além da capacidade de perdoar-se e aos outros e elaborar os devidos lutos por tudo aquilo que não foi possível de viver, fazer e de ser.
A arte é a expressão simbólica do mundo interno, de suas paixões e angustias e de seus objetos. Assim, a arte é sempre autobiográfica já que o artista recria, através de sua arte, seu mundo interno.

“O que na realidade chamamos de feio, em parte pode tornar-se grande beleza. Chamamos de feio o que é informe, insano, que sugere doença, sofrimento, destruição, o que é contrario à regularidade – o sinal da saúde... Chamamos também de feio o imoral, o vicioso, o criminoso e toda anormalidade que produz o mal – a alma do parricida, o traidor, o egoísta... Mas deixe que um grande artista consiga apropriar-se dessa feiúra. Imediatamente ele a transfigura com um toque de sua varinha mágica, ele a transforma em beleza” (A. Rodin, 1911).

Patrícia Turtelli Maronezi
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