Cinema e Psicanálise

08 Junho, 2007

O Fantasma da Opera

Este belíssimo musical e filme nos trás vasto material para uma análise psicanalítica. Os personagens são riquíssimos e suas relações complexas e nem sempre obvias. É um filme para se ver muitas vezes e que desperta muitas reflexões.
Penso no fantasma como alguém com dificuldades relacionadas ao narcisismo. A forma como ele idealiza a si mesmo e a Christine, a maneira como usa Christine como um prolongamento seu, lhe negando uma diferenciação e vida própria, a intolerância as diferenças e as frustrações, o predomínio da inveja destrutiva, essas características todas estão presentes e são bem evidentes no filme.
A ferida que trás em seu rosto é algo concreto, real e externo. Mas nem sempre precisa ser assim. Muitas pessoas com personalidade narcísica sofreram danos emocionais, a começar por uma possível rejeição sentida pelos objetos primeiros de amor (mãe e pai). Essa rejeição deixa uma marca afetiva e proporciona que a pessoa desenvolva uma capa protetora do eu. Essa “capa” de auto-suficiência e grandiosidade muitas vezes esconde sentimentos de desvalia, depressão, ódio, ressentimento. O fantasma se mostra grandioso, imbatível, melhor do que todos. Realmente é muito talentoso e se pudesse ver isso com mais humildade provavelmente não se sentiria tão devastado pelo rosto desfigurado. Ele procura em Christine uma sombra, alguém belo e bom para ser o que ele não pode ser. Usa Christine como se fosse um duplo, seu prolongamento. Desta forma não lhe garante vida própria, mente própria e a torna prisioneira de seus próprios desejos e necessidades. O fantasma precisa desesperadamente de alguém que o veja com olhos de amor e que o aceite em sua monstruosidade. Christine pode fazer isso com amor genuíno e compaixão, neste momento ele a liberta e pode sentir algo de gratidão por ela. Neste momento ele é capaz de realmente amá-la, um amor mais amadurecido.
No inicio do filme o fantasma ama como uma criança, que ama mais pela necessidade de sobrevivência do que por consideração e admiração pelo objeto. Já no fim do filme seu drama interno se modifica e ele pode mostrar um outro tipo de amor a Christine.
A musica é sedutora, envolvente, penetra nos ouvidos e nos sentidos. Assim como as pulsões, tão viscerais, tão humanas. O fantasma é pulsional, ama, odeia, tem ciúmes, inveja, ou seja, ele tem todas as paixões, e a maioria delas sem nenhuma transformação. Daí penso que o filme é tão tocante. Fala das paixões humanas, daquilo que temos de mais profundo e verdadeiro.
A psicanálise lida com essas paixões. Na verdade, são elas que entram em nossos consultórios, uma vez que o que é transformado, adequado, geralmente fica do lado de fora, no social, no familiar...
Penso também que o fantasma pode ser entendido como uma parte da mente de qualquer pessoa. Aquela parte mais infantil, carente, insegura, que quer o outro só para si... Talvez por esse motivo as pessoas se identifiquem tanto com o fantasma e talvez por isso ele seja o personagem que mais recebe os aplausos da platéia numa encenação musical.
É claro que é tarefa do desenvolvimento humano que possamos conhecer de perto os nossos fantasmas. Numa analise, isso chega a acontecer e aí a verdade é bem clara. O que resta é cuidar desses fantasmas, numa espécie de auto-cura.
Christine é tão carente, tem um vazio imenso que o pai deixou. Deixa-se fisgar pela sedução do fantasma. Ela o coloca no lugar do pai, é o seu tutor, mestre, anjo da musica. Existe uma confusão se aquele personagem é amigo ou não. Se é o pai ou se é um fantasma. Penso que todas essas questões envolvem o desprendimento necessário para elaboração do Édipo. Se consigo deixar o amor paterno como uma lembrança que estrutura meu psiquismo, posso me tornar mulher, investir outros objetos. Senão, fico para sempre menina, e lamentando um vinculo, um anelo que há muito já não existe mais.
Christine tem dificuldades em elaborar o luto pela morte do pai. Tenta negar esta perda quando o substitui pelo fantasma. Mas esse truque não lhe é totalmente inofensivo. Deixa-a presa, num estado de solidão e de meninice eterna.
Este filme nos fala sobre as perdas. A perda de um rosto, do amor de uma mãe, da presença de um pai. A lida com essas perdas é que impulsiona a pessoa para o desenvolvimento e a saúde ou a joga no buraco fundo da depressão. O fantasma nunca aceitou seu rosto deformado, sentia um intenso ódio da vida por isso. Essa indignação lhe custou caro. Encheu seu coração de ódio, inveja, destrutividade, a ponto de quase não conseguir amar. Christine nunca colocou seu pai no passado, tanto que este perambula por sua mente em forma fantasmagórica. Quando consegue se despedir do pai, o deixa como lembrança e pode investir outras pessoas, vivas. Assim sai da solidão, ou melhor, passa das relações com os mortos para as relações interpessoais. Isso é um tremendo salto em sua vida e certamente em sua capacidade de fruí-la. A reflexão se dá quando pensamos o que fazemos com aquilo que se perde, que se acaba... A vida precisa ser sentida de outra maneira então, o que resta é aquilo que pode e deve ser olhado.
Patrícia Turtelli Maronezi
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