Cinema e Psicanálise

02 Agosto, 2007

Em seu lugar

Ao assistir as primeiras cenas do filme pensei que seria mais uma simples comédia, contudo, fui surpreendida pela forma profunda que o filme aborda as relações familiares. A personagem Maggie, interpretada por Cameron Dias se destaca por sua beleza e por sua personalidade, por esse motivo partirei dessa personagem para fazer algumas considerações.
Penso que Maggie tem uma personalidade histérica (não pretendo especificar o tipo de histeria). Em um primeiro momento, parece que Maggie é uma mulher segura, confiante, independente e com uma boa auto-estima, mas é justamente o contrário, a histérica sofre de angustia de desamparo, é insegura, tem baixa auto-estima e é dependente. Quando Maggie está só, ela rouba o cachorro na tentativa de evitar o desamparo. Também é importante lembrar que o corpo é de suma importância para a pessoa com personalidade histérica, pois é através deste que ela consegue o que quer, seja com um sorriso enigmático, na maneira de se vestir, de um olhar diferente, ou até pela entonação da voz. É utilizando elementos corporais que Maggie consegue seduzir os homens. Normalmente a histérica tem uma sexualidade prejudicada, sendo comum comportamento sexual promíscuo ou utilização da técnica da provocação, ou seja, seduzir o homem para depois fugir. “O homem com freqüência interpreta erroneamente suas atitudes como investidas sexuais, e ela é continuamente surpreendida por este mal entendido - um fato que reflete a natureza inconsciente de sua sedução” (Gabbard). Este comportamento pode ser visto na cena que Maggie aceita a carona de dois rapazes, sai com eles para tomar drinks e é surpreendida quando um deles tenta beijá-la.
Outra importante especificidade a considerar nesse tipo de personalidade é o vínculo do reconhecimento. A histérica precisa de provas concretas que é amada e desejada, exigindo ser o centro da vida da outra pessoa. No filme, notamos que Maggie utiliza a sedução para se sentir amada e desejada. A personagem não passa despercebida em nenhuma cena, ela precisa ser notada. Por onde anda deixa vestígios: roupas espalhadas, sapatos sujos e quebrados... transforma a casa e a vida de Rose (sua irmã) em um caos. A histérica age de forma sedutora e impulsiva, de acordo com o processo primário de pensamento. Age pelo momento, faz o que tem vontade, sem pensar e ponderar as conseqüências, ou seja, não considera a realidade.
Acho pertinente fazer algumas colocações sobre as irmãs: Maggie e Rose. O filme deixa claro que a morte da mãe foi um trauma na vida dessas pessoas e cada uma desenvolveu um tipo de defesa diferente contra a depressão. Maggie se aproxima de uma defesa psicótica, enquanto Rose se aproxima mais de uma defesa neurótica, esta se ligou de forma obsessiva ao trabalho. Parece que cada uma assumiu um papel diferente dentro da família, coube a Maggie assumir o papel de louca, irresponsável e irreverente e Rose como ponderada, responsável e bem adaptada. Havendo assim uma cisão entre as personagens, estando em pólos opostos. Também é diferente a relação que cada uma estabelece com os sapatos. Para Rose os sapatos são quase como um fetiche, sendo que todo o investimento libidinal está no pé. Para Maggie os sapatos são uma forma dela se sentir no lugar da irmã, como se ela tivesse o dinheiro, a casa, o emprego da Rose, revelando assim o desejo de calçar a vida da irmã.
As obras de arte que aparecem na casa de Rose revelam o mundo interno dessa personagem. Os quadros foram pintados por John Register, artista que se preocupou em retratar a solidão. Algumas obras desse pintor também são encontradas na casa de Ella (a avó das irmãs).
Passarei agora a apontar a importância de Ella e dos demais velhinhos. Penso que Ella exerce uma função materna, suprindo as necessidades básicas de Maggie, como casa, comida e calor materno. Durante o filme, Maggie sai da Filadélfia que é um lugar frio e que nos leva a pensar em relações geladas e vai para o calor da Flórida encontrar a sua calorosa avó.
Sabemos que a mãe é um modelo de identificação para seus filhos, mas no caso de Maggie, ela ficou muito mais que identificada com sua mãe, ela se transformou na própria mãe. Isso aconteceu porque a mãe de Maggie sofria de surtos psicóticos e não conseguiu exercer com sucesso a função de espelho que lhe cabia, visto que a mãe psicótica reflete sua própria imagem para o bebê. No filme, Maggie é descrita por sua avó como igual à mãe. Durante o tempo que Maggie passou na casa de repouso, ela pôde buscar novas fontes de identificação e fazer uma nova reedição com as figuras do passado (simbolizada pelos velhinhos). Ella pôde funcionar como um espelho para Maggie, mostrando que ela era uma pessoa capaz, inteligente, criativa, que não precisava apelar sexualmente para ser aceita e valorizada.
Ao final do filme, as personagens caminham rumo a integração. Maggie passa a funcionar de forma mais saudável, desenvolve suas potencialidades e passa a se relacionar considerando a existência de um outro como pessoa diferente. Rose consegue levar de forma mais leve a vida e Ella entrega seus sapatos a Rose, para que ela possa estar em seu lugar, um lugar de maturidade, de relações saudáveis e de um casamento feliz.
Maggie consegue internalizar um objeto bom e passa a não ter mais medo de ficar sozinha, assim, deixa a irmã se casar e ir embora.
“Aqui está a raiz da raiz, o broto do broto e o céu do céu de uma árvore chamada vida. Que cresce mais do que a alma pode esperar, ou a mente pode esconder. E esse é o prodígio que mantém as estrelas à distância. Carrego seu coração comigo. Eu o carrego no meu coração.” E. E. Cummings

Aline Cristina Rodrigues
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