Camille Claudel
Neste belíssimo e biográfico filme podemos conhecer melhor a vida e a obra desses geniais artistas que foram August Rodin e Camille Claudel, e também acompanhar o frutífero, porém conturbado envolvimento amoroso entre ambos.Já no início do filme vemos uma Camille passional, impulsiva e de comportamento confrontador. Apresenta uma relação de profundo envolvimento com suas esculturas, a despeito de um distanciamento da realidade. Após conhecer Rodin e se apaixonar por ele percebemos que também se vincula com este de forma intensa, dramática, desesperadora e vital.
A beleza do filme está na modelagem das esculturas, na lida de Camille e Rodin com a matéria-prima (barro, mármore) e obviamente na intensidade da paixão que ambos sucumbem. Interessante notar que Camille mostra-se uma mulher fisicamente forte, cheia de idéias e criatividade. O filme a mostra carregando peças de mármore e as esculpindo e fica evidente a força física e a motivação intensa da artista. Pensei a respeito da pulsão de vida, que liga, constrói, cria. Camille aplica na sua arte essa pulsão vital e como resultado temos hoje suas belíssimas esculturas.
A relação familiar de Camille é conturbada. Muito ligada ao pai e ao irmão, Paul. No entanto, tem uma relação distante com a mãe severa que a critíca e denigre. O pai lhe faz os gostos a contragosto da mãe, o que podemos pensar numa aliança fora de lugar do pai com Camille. Quando ela se envolve com Rodin parece procurar também este tipo de aliança, já que Rodin é casado e cerca de 20 anos mais velho do que ela. É o triangulo edípico revivido fora da família. Assim, Camille não pode ocupar um lugar que lhe seja seu por direito, e fica a rivalizar ora com a própria mãe, ora com a mulher de Rodin, Rose. Digno de nota que a mãe de Camille tinha perdido um filho antes dela e que esperava que Camille fosse um menino.
A paixão de Camille e Rodin é do tipo narcísico, onde um se encontra no outro e se abastece de suas qualidades. Por esse motivo a separação é tão dolorosa e impossível de ser elaborada. Perder o outro significa perder uma parte do próprio Eu. Rodin encanta-se com ela, com sua personalidade apaixonada, com sua beleza e jovialidade (tudo que ele já foi um dia). Ela ama Rodin como um pai erotizado e que ao mesmo tempo a protege.
Desde o principio a relação já emite sinais de problemas futuros. Camille, antes de se entregar a Rodin, diz que se mataria se sofresse uma desilusão amorosa. E Rodin por sua vez é conhecido por suas conquistas e pela devastação emocional que causa nas mulheres quando as abandona. Portanto, estão jogadas as fichas do futuro bombástico de ambos. Porém, esses sinais são negados e a relação segue adiante. Podemos pensar que a capacidade pensante de Rodin e Camille está temporariamente prejudicada. Estão guiados pela pulsão, desejo e diria também pela parte destrutiva da mente. Haja visto todas as complicações que a relação estava trazendo. Quando a pessoa está sendo guiada pela parte da personalidade que não consegue pensar e que tende a descarga, atuação e ausência de repressão percebemos a dificuldade de contato com a realidade e a total desconsideração pelas regras e pelo outro.
A gravidez e o conseqüente aborto de Camille trazem a história um fator traumático que compreendo, ajuda a desencadear a loucura da personagem. Quando perde Rodin e o bebê que espera dele é como se perdesse a força vital que a liga a vida, no desenvolvimento e na autopreservação. Camille começa um processo autodestrutivo intenso, onde bebe, quebra suas esculturas, discute com colegas de trabalho, desperdiça chances valiosas de se fazer uma escultora conhecida. É claro que a dor que vivia foi em parte transformada em arte. Mas não sendo canal suficiente a personagem foi emocionalmente morrendo e perdendo-se.
Instala-se um ciclo vicioso onde a personagem delira, se destrói, depois se culpa, se envergonha, mas sentindo-se esmagada pela desesperança não consegue transformar sua dor em aprendizado. O oposto disso transforma sua dor em mais dor.
Podemos conjecturar que Camille apesar de toda genialidade e talento, não teve força egóica suficiente para lutar contra o lado destrutivo de sua própria mente. Não sendo capaz de elaborar o luto por suas perdas e de canalizar sua energia psíquica em outras direções, ela continua obsessivamente a sofrer por Rodin e pelo passado. Penso que a saúde está ligada diretamente a capacidade de transformar as experiências e de aprender com elas. Além da capacidade de perdoar-se e aos outros e elaborar os devidos lutos por tudo aquilo que não foi possível de viver, fazer e de ser.
A arte é a expressão simbólica do mundo interno, de suas paixões e angustias e de seus objetos. Assim, a arte é sempre autobiográfica já que o artista recria, através de sua arte, seu mundo interno.
“O que na realidade chamamos de feio, em parte pode tornar-se grande beleza. Chamamos de feio o que é informe, insano, que sugere doença, sofrimento, destruição, o que é contrario à regularidade – o sinal da saúde... Chamamos também de feio o imoral, o vicioso, o criminoso e toda anormalidade que produz o mal – a alma do parricida, o traidor, o egoísta... Mas deixe que um grande artista consiga apropriar-se dessa feiúra. Imediatamente ele a transfigura com um toque de sua varinha mágica, ele a transforma em beleza” (A. Rodin, 1911).
Patrícia Turtelli Maronezi
Rua Maria José, 5-36, Bauru, SP
Fone: (14) 3018-9348/ (14) 3227-6558
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