O fabuloso destino de Amelie Poulin
Podemos iniciar esta analise comentando o titulo do filme. O fabuloso destino de Amelie Poulin. Num primeiro momento pensei que realmente a vida de Amelie sofre transformações e o final do filme é fabuloso, temos a protagonista muito feliz e realizada com seu amor Nino. Então nesta primeira perspectiva o fabuloso destino de A. P. teria como sentido a questão de um desenrolar grandioso, entusiasmante, belo. Num segundo momento pensei em fabuloso como proveniente de fábula, fantasia, imaginação. E é ai que entramos no cerne da personalidade desta adorável e enigmática personagem. Amelie é uma moça com serias dificuldades de vinculação, afetividade e entrega. Porém, em sua vida de fantasia tudo é possível, e tudo realmente acontece. O problema é que “tudo”que deve e precisa acontecer fica somente no mundo de fantasia e fábula, ou seja, na imaginação de Amelie.O narrador do filme, aí também outro aspecto das fábulas, alguém que conta a estória, descreve vários fatos simultâneos (uns cotidianos e outros muito importantes), particularidades das pessoas, seus hábitos mais íntimos e excêntricos. Fala também sobre as situações da vida, da morte e das trivialidades do cotidiano. Interessante notar que neste descrever o narrador vai implicitamente nos colocando a idéia de subjetividade.
Amelie foi uma criança solitária, brincava sozinha, utilizava intensamente sua imaginação e fantasia (até como um recurso contra um possível vazio e depressão). Curiosa, criativa, sublimava suas necessidades de contato e afeto imaginando, criando hipóteses que a auxiliavam a dar sentido ao mundo que a rodeava.
O pai de Amelie parece desafetado, robótico, distante e com marcante personalidade obsessiva. Após a morte da esposa essas características intensificam-se e o pai torna-se ainda mais desconectado do mundo externo e de Amelie.
A mãe, uma mulher nervosa, áspera, incontinente. Também com muitas dificuldades em conectar-se afetivamente, perceber e atender as necessidades emocionais da filha.
Amelie ganha de presente da mãe uma maquina fotográfica. Sentindo-se muito gratificada pass /* Feeds ----------------------------------------------- */ #blogfeeds { } #postfeeds { }
Cinema e Psicanálise
06 Março, 2010
O fabuloso destino de Amelie Poulin
a a registrar o mundo a sua volta. É sua maneira de se ligar a esse mundo, uma forma primitiva de contato, onde a necessidade concreta da ligação ainda é premente (precisa registrar tudo em fotos, senão corre o risco de não reter a experiência afetiva). Assim estabelece com a realidade uma relação ativa, fotografando e explorando o ambiente. O acidente de carro pelo qual é indevidamente culpada a faz frear sua atividade, curiosidade e exploração. É como se sentisse que a atividade, o estar viva no mundo e interagir com este fosse altamente perigoso e de conseqüências catastróficas (interessante a cena onde ela assista a TV e fica aterrorizada ao ver todas as catástrofes que sua “maquina” causou).
A perda da mãe ocorreu de forma traumática. O trauma é proveniente do fator surpresa da situação (a mãe é esmagada por uma suicida) e do excesso de estímulos que a mente precisa dar conta e elaborar. Amelie ainda é muito imatura para conseguir discernir uma situação onde mundo interno e externo se confundem, onde a fantasia e a realidade ainda são muito misturadas. Assim, antes da mãe ser morta elas estavam dentro da igreja para que Amelie ganhasse um irmãozinho. Sabemos como as crianças são ambivalentes em relação aos irmãos, e as fantasias agressivas que são dirigidas em relação ao bebê, a mãe, e também ao pai. Este fator pode ter contribuído para agravar a elaboração da morte da mãe por Amelie. Instalando um possível sentimento de culpa inconsciente pelas fantasias agressivas. Sabemos que o sentimento de culpa é um poderoso inibidor de toda atividade pulsional. Penso que parte da paralisação e retraimento da protagonista possui relação com esses fatos de sua historia de vida. Sua experiência emocional significou psiquicamente que as relações, o sentir e o expressar são altamente perigosos e geradores de conseqüências dramáticas e dolorosas. Uma solução de compromisso para tal significado e conflito seria então o que a protagonista fez: paralisa-se a vida emocional, congela-se os afetos e assim ninguém corre risco, nem ela mesma, nem os outros.
Bem, após a morte de sua mãe, Amelie intensifica ainda mais suas características esquizóides. Passando a se comportar como um autômato, com poucas expressões espontâneas e quase nenhuma ligação com outras pessoas.
Amelie gosta de observar os outros, se interessa sobre suas vidas. Existe um aspecto voyerista na personagem. Viver a vida alheia é mais interessante e oferece menos riscos do que viver a própria. Olhando predominantemente para fora ela se evade de olhar para si mesma, pois isso seria desalentador.
É interessante que ela experimenta a emoção através do outro. Tanto o amor, a gratificação, a excitação sexual como a raiva e o medo. É um tipo de identificação projetiva exitosa, porque a personagem cinde (separa dentro de si) uma parte do próprio eu (neste caso a capacidade de sentir e os conseqüentes afetos) e mobiliza o outro para que ele sinta o que ela ainda não pode sentir. É claro que este mecanismo de defesa embora defenda o ego dos perigos das emoções também esvazia a experiência na medida de que retira a afetividade e o sentido da própria vida.
O autômato é aquele que não consegue se conectar ao próprio mundo interno, tampouco ao externo e as pessoas. Amelie funciona de forma automata, sendo isso representado nos seus comportamentos e inclusive facialmente. Amelie tem uma expressão artificial, parece uma boneca de cera.
O personagem do homem de vidro é interessantíssimo. Ele representa a parte esquizóide de Amelie que sofre, é frágil e se fecha num mundo próprio, tendo a vida conseqüentemente empobrecida. É um talentoso artista, mas que não cria e sim reproduz, copia (de forma belíssima, é verdade) os quadros de um genial pintor (Renoir). Desta maneira pinta as festas, a vida, o movimento, mas não vive a festa, a vida, tampouco se movimenta. Tem um esqueleto de vidro (uma mente que de tão frágil pode quebrar-se?). Não possui constituição física nem mental para enfrentar a vida e a realidade (com seus inevitáveis percalços).
É bonito o desenrolar do filme onde ele e Amelie vão, um através do outro, experimentando como poderia ser viver diferente, livre, sem medo. No final do filme o homem de vidro pinta um quadro diferente, original, uma criação sua. O desenvolvimento da personalidade culmina numa existência mais autêntica verdadeira e livre. O homem saudável é aquele que, levando em consideração a sua constituição, pode ser o que é.
A transformação de Amelie se inicia no dia da morte da princesa. Penso a princesa como a parte infantil, fantasiosa e esquizóide de Amelie (afinal princesas vivem em castelos, protegidas e isoladas do mundo!). Ela encontra a caixa (como se fosse o tesouro, o potencial, o inconsciente, a parte cindida de sua própria personalidade) e decide ajudar os outros a partir de então. Este movimento é um pretexto para sair do isolamento, ainda que a razão para isso precise estar no outro (novamente aqui a identificação projetiva).
É preciso enfrentar o medo, sair do conhecido, do estável para crescer. A cena final que Amelie passeia de moto por Paris junto com Nino, expressa esta idéia do movimento da vida e da ligação entre as pessoas. Neste momento reparamos como a expressão facial e o sorriso da protagonista se humaniza e ela pode experimentar emocionalmente o que significa sentir-se viva.
A perda da mãe ocorreu de forma traumática. O trauma é proveniente do fator surpresa da situação (a mãe é esmagada por uma suicida) e do excesso de estímulos que a mente precisa dar conta e elaborar. Amelie ainda é muito imatura para conseguir discernir uma situação onde mundo interno e externo se confundem, onde a fantasia e a realidade ainda são muito misturadas. Assim, antes da mãe ser morta elas estavam dentro da igreja para que Amelie ganhasse um irmãozinho. Sabemos como as crianças são ambivalentes em relação aos irmãos, e as fantasias agressivas que são dirigidas em relação ao bebê, a mãe, e também ao pai. Este fator pode ter contribuído para agravar a elaboração da morte da mãe por Amelie. Instalando um possível sentimento de culpa inconsciente pelas fantasias agressivas. Sabemos que o sentimento de culpa é um poderoso inibidor de toda atividade pulsional. Penso que parte da paralisação e retraimento da protagonista possui relação com esses fatos de sua historia de vida. Sua experiência emocional significou psiquicamente que as relações, o sentir e o expressar são altamente perigosos e geradores de conseqüências dramáticas e dolorosas. Uma solução de compromisso para tal significado e conflito seria então o que a protagonista fez: paralisa-se a vida emocional, congela-se os afetos e assim ninguém corre risco, nem ela mesma, nem os outros.
Bem, após a morte de sua mãe, Amelie intensifica ainda mais suas características esquizóides. Passando a se comportar como um autômato, com poucas expressões espontâneas e quase nenhuma ligação com outras pessoas.
Amelie gosta de observar os outros, se interessa sobre suas vidas. Existe um aspecto voyerista na personagem. Viver a vida alheia é mais interessante e oferece menos riscos do que viver a própria. Olhando predominantemente para fora ela se evade de olhar para si mesma, pois isso seria desalentador.
É interessante que ela experimenta a emoção através do outro. Tanto o amor, a gratificação, a excitação sexual como a raiva e o medo. É um tipo de identificação projetiva exitosa, porque a personagem cinde (separa dentro de si) uma parte do próprio eu (neste caso a capacidade de sentir e os conseqüentes afetos) e mobiliza o outro para que ele sinta o que ela ainda não pode sentir. É claro que este mecanismo de defesa embora defenda o ego dos perigos das emoções também esvazia a experiência na medida de que retira a afetividade e o sentido da própria vida.
O autômato é aquele que não consegue se conectar ao próprio mundo interno, tampouco ao externo e as pessoas. Amelie funciona de forma automata, sendo isso representado nos seus comportamentos e inclusive facialmente. Amelie tem uma expressão artificial, parece uma boneca de cera.
O personagem do homem de vidro é interessantíssimo. Ele representa a parte esquizóide de Amelie que sofre, é frágil e se fecha num mundo próprio, tendo a vida conseqüentemente empobrecida. É um talentoso artista, mas que não cria e sim reproduz, copia (de forma belíssima, é verdade) os quadros de um genial pintor (Renoir). Desta maneira pinta as festas, a vida, o movimento, mas não vive a festa, a vida, tampouco se movimenta. Tem um esqueleto de vidro (uma mente que de tão frágil pode quebrar-se?). Não possui constituição física nem mental para enfrentar a vida e a realidade (com seus inevitáveis percalços).
É bonito o desenrolar do filme onde ele e Amelie vão, um através do outro, experimentando como poderia ser viver diferente, livre, sem medo. No final do filme o homem de vidro pinta um quadro diferente, original, uma criação sua. O desenvolvimento da personalidade culmina numa existência mais autêntica verdadeira e livre. O homem saudável é aquele que, levando em consideração a sua constituição, pode ser o que é.
A transformação de Amelie se inicia no dia da morte da princesa. Penso a princesa como a parte infantil, fantasiosa e esquizóide de Amelie (afinal princesas vivem em castelos, protegidas e isoladas do mundo!). Ela encontra a caixa (como se fosse o tesouro, o potencial, o inconsciente, a parte cindida de sua própria personalidade) e decide ajudar os outros a partir de então. Este movimento é um pretexto para sair do isolamento, ainda que a razão para isso precise estar no outro (novamente aqui a identificação projetiva).
É preciso enfrentar o medo, sair do conhecido, do estável para crescer. A cena final que Amelie passeia de moto por Paris junto com Nino, expressa esta idéia do movimento da vida e da ligação entre as pessoas. Neste momento reparamos como a expressão facial e o sorriso da protagonista se humaniza e ela pode experimentar emocionalmente o que significa sentir-se viva.
Patrícia Turtelli Maronezi
Rua Maria José, 5-36, Bauru, SP
Fone: (14) 3018-9348/ (14) 3227-6558
Marcadores: fantasia, psicanalise, vinculos afetivos
Camille Claudel
Neste belíssimo e biográfico filme podemos conhecer melhor a vida e a obra desses geniais artistas que foram August Rodin e Camille Claudel, e também acompanhar o frutífero, porém conturbado envolvimento amoroso entre ambos.Já no início do filme vemos uma Camille passional, impulsiva e de comportamento confrontador. Apresenta uma relação de profundo envolvimento com suas esculturas, a despeito de um distanciameão a sua constituição, pode ser o que é.
A transformação de Amelie se inicia no dia da morte da princesa. Penso a princesa como a parte infantil, fantasiosa e esquizóide de Amelie (afinal princesas vivem em castelos, protegidas e isoladas do mundo!). Ela encontra a caixa (como se fosse o tesouro, o potencial, o inconsciente, a parte cindida de sua própria personalidade) e decide ajudar os outros a partir de então. Este movimento é um pretexto para sair do isolamento, ainda que a razão para isso precise estar no outro (novamente aqui a identificação projetiva).
É preciso enfrentar o medo, sair do conhecido, do estável para crescer. A cena final que Amelie passeia de moto por Paris junto com Nino, expressa esta idéia do movimento da vida e da ligação entre as pessoas. Neste momento reparamos como a expressão facial e o sorriso da protagonista se humaniza e ela pode experimentar emocionalmente o que significa sentir-se viva.
Patrícia Turtelli Maronezi
Rua Maria José, 5-36, Bauru, SP
Fone: (14) 3018-9348/ (14) 3227-6558
Marcadores: fantasia, psicanalise, vinculos afetivos
Camille Claudel
nto da realidade. Após conhecer Rodin e se apaixonar por ele percebemos que também se vincula com este de forma intensa, dramática, desesperadora e vital.
A beleza do filme está na modelagem das esculturas, na lida de Camille e Rodin com a matéria-prima (barro, mármore) e obviamente na intensidade da paixão que ambos sucumbem. Interessante notar que Camille mostra-se uma mulher fisicamente forte, cheia de idéias e criatividade. O filme a mostra carregando peças de mármore e as esculpindo e fica evidente a força física e a motivação intensa da artista. Pensei a respeito da pulsão de vida, que liga, constrói, cria. Camille aplica na sua arte essa pulsão vital e como resultado temos hoje suas belíssimas esculturas.
A relação familiar de Camille é conturbada. Muito ligada ao pai e ao irmão, Paul. No entanto, tem uma relação distante com a mãe severa que a critíca e denigre. O pai lhe faz os gostos a contragosto da mãe, o que podemos pensar numa aliança fora de lugar do pai com Camille. Quando ela se envolve com Rodin parece procurar também este tipo de aliança, já que Rodin é casado e cerca de 20 anos mais velho do que ela. É o triangulo edípico revivido fora da família. Assim, Camille não pode ocupar um lugar que lhe seja seu por direito, e fica a rivalizar ora com a própria mãe, ora com a mulher de Rodin, Rose. Digno de nota que a mãe de Camille tinha perdido um filho antes dela e que esperava que Camille fosse um menino.
A paixão de Camille e Rodin é do tipo narcísico, onde um se encontra no outro e se abastece de suas qualidades. Por esse motivo a separação é tão dolorosa e impossível de ser elaborada. Perder o outro significa perder uma parte do próprio Eu. Rodin encanta-se com ela, com sua personalidade apaixonada, com sua beleza e jovialidade (tudo que ele já foi um dia). Ela ama Rodin como um pai erotizado e que ao mesmo tempo a protege.
Desde o principio a relação já emite sinais de problemas futuros. Camille, antes de se entregar a Rodin, diz que se mataria se sofresse uma desilusão amorosa. E Rodin por sua vez é conhecido por suas conquistas e pela devastação emocional que causa nas mulheres quando as abandona. Portanto, estão jogadas as fichas do futuro bombástico de ambos. Porém, esses sinais são negados e a relação segue adiante. Podemos pensar que a capacidade pensante de Rodin e Camille está temporariamente prejudicada. Estão guiados pela pulsão, desejo e diria também pela parte destrutiva da mente. Haja visto todas as complicações que a relação estava trazendo. Quando a pessoa está sendo guiada pela parte da personalidade que não consegue pensar e que tende a descarga, atuação e ausência de repressão percebemos a dificuldade de contato com a realidade e a total desconsideração pelas regras e pelo outro.
A gravidez e o conseqüente aborto de Camille trazem a história um fator traumático que compreendo, ajuda a desencadear a loucura da personagem. Quando perde Rodin e o bebê que espera dele é como se perdesse a força vital que a liga a vida, no desenvolvimento e na autopreservação. Camille começa um processo autodestrutivo intenso, onde bebe, quebra suas esculturas, discute com colegas de trabalho, desperdiça chances valiosas de se fazer uma escultora conhecida. É claro que a dor que vivia foi em parte transformada em arte. Mas não sendo canal suficiente a personagem foi emocionalmente morrendo e perdendo-se.
Instala-se um ciclo vicioso onde a personagem delira, se destrói, depois se culpa, se envergonha, mas sentindo-se esmagada pela desesperança não consegue transformar sua dor em aprendizado. O oposto disso transforma sua dor em mais dor.
Podemos conjecturar que Camille apesar de toda genialidade e talento, não teve força egóica suficiente para lutar contra o lado destrutivo de sua própria mente. Não sendo capaz de elaborar o luto por suas perdas e de canalizar sua energia psíquica em outras direções, ela continua obsessivamente a sofrer por Rodin e pelo passado. Penso que a saúde está ligada diretamente a capacidade de transformar as experiências e de aprender com elas. Além da capacidade de perdoar-se e aos outros e elaborar os devidos lutos por tudo aquilo que não foi possível de viver, fazer e de ser.
A arte é a expressão simbólica do mundo interno, de suas paixões e angustias e de seus objetos. Assim, a arte é sempre autobiográfica já que o artista recria, através de sua arte, seu mundo interno.
“O que na realidade chamamos de feio, em parte pode tornar-se grande beleza. Chamamos de feio o que é informe, insano, que sugere doença, sofrimento, destruição, o que é contrario à regularidade – o sinal da saúde... Chamamos também de feio o imoral, o vicioso, o criminoso e toda anormalidade que produz o mal – a alma do parricida, o traidor, o egoísta... Mas deixe que um grande artista consiga apropriar-se dessa feiúra. Imediatamente ele a transfigura com um toque de sua varinha mágica, ele a transforma em beleza” (A. Rodin, 1911).
A beleza do filme está na modelagem das esculturas, na lida de Camille e Rodin com a matéria-prima (barro, mármore) e obviamente na intensidade da paixão que ambos sucumbem. Interessante notar que Camille mostra-se uma mulher fisicamente forte, cheia de idéias e criatividade. O filme a mostra carregando peças de mármore e as esculpindo e fica evidente a força física e a motivação intensa da artista. Pensei a respeito da pulsão de vida, que liga, constrói, cria. Camille aplica na sua arte essa pulsão vital e como resultado temos hoje suas belíssimas esculturas.
A relação familiar de Camille é conturbada. Muito ligada ao pai e ao irmão, Paul. No entanto, tem uma relação distante com a mãe severa que a critíca e denigre. O pai lhe faz os gostos a contragosto da mãe, o que podemos pensar numa aliança fora de lugar do pai com Camille. Quando ela se envolve com Rodin parece procurar também este tipo de aliança, já que Rodin é casado e cerca de 20 anos mais velho do que ela. É o triangulo edípico revivido fora da família. Assim, Camille não pode ocupar um lugar que lhe seja seu por direito, e fica a rivalizar ora com a própria mãe, ora com a mulher de Rodin, Rose. Digno de nota que a mãe de Camille tinha perdido um filho antes dela e que esperava que Camille fosse um menino.
A paixão de Camille e Rodin é do tipo narcísico, onde um se encontra no outro e se abastece de suas qualidades. Por esse motivo a separação é tão dolorosa e impossível de ser elaborada. Perder o outro significa perder uma parte do próprio Eu. Rodin encanta-se com ela, com sua personalidade apaixonada, com sua beleza e jovialidade (tudo que ele já foi um dia). Ela ama Rodin como um pai erotizado e que ao mesmo tempo a protege.
Desde o principio a relação já emite sinais de problemas futuros. Camille, antes de se entregar a Rodin, diz que se mataria se sofresse uma desilusão amorosa. E Rodin por sua vez é conhecido por suas conquistas e pela devastação emocional que causa nas mulheres quando as abandona. Portanto, estão jogadas as fichas do futuro bombástico de ambos. Porém, esses sinais são negados e a relação segue adiante. Podemos pensar que a capacidade pensante de Rodin e Camille está temporariamente prejudicada. Estão guiados pela pulsão, desejo e diria também pela parte destrutiva da mente. Haja visto todas as complicações que a relação estava trazendo. Quando a pessoa está sendo guiada pela parte da personalidade que não consegue pensar e que tende a descarga, atuação e ausência de repressão percebemos a dificuldade de contato com a realidade e a total desconsideração pelas regras e pelo outro.
A gravidez e o conseqüente aborto de Camille trazem a história um fator traumático que compreendo, ajuda a desencadear a loucura da personagem. Quando perde Rodin e o bebê que espera dele é como se perdesse a força vital que a liga a vida, no desenvolvimento e na autopreservação. Camille começa um processo autodestrutivo intenso, onde bebe, quebra suas esculturas, discute com colegas de trabalho, desperdiça chances valiosas de se fazer uma escultora conhecida. É claro que a dor que vivia foi em parte transformada em arte. Mas não sendo canal suficiente a personagem foi emocionalmente morrendo e perdendo-se.
Instala-se um ciclo vicioso onde a personagem delira, se destrói, depois se culpa, se envergonha, mas sentindo-se esmagada pela desesperança não consegue transformar sua dor em aprendizado. O oposto disso transforma sua dor em mais dor.
Podemos conjecturar que Camille apesar de toda genialidade e talento, não teve força egóica suficiente para lutar contra o lado destrutivo de sua própria mente. Não sendo capaz de elaborar o luto por suas perdas e de canalizar sua energia psíquica em outras direções, ela continua obsessivamente a sofrer por Rodin e pelo passado. Penso que a saúde está ligada diretamente a capacidade de transformar as experiências e de aprender com elas. Além da capacidade de perdoar-se e aos outros e elaborar os devidos lutos por tudo aquilo que não foi possível de viver, fazer e de ser.
A arte é a expressão simbólica do mundo interno, de suas paixões e angustias e de seus objetos. Assim, a arte é sempre autobiográfica já que o artista recria, através de sua arte, seu mundo interno.
“O que na realidade chamamos de feio, em parte pode tornar-se grande beleza. Chamamos de feio o que é informe, insano, que sugere doença, sofrimento, destruição, o que é contrario à regularidade – o sinal da saúde... Chamamos também de feio o imoral, o vicioso, o criminoso e toda anormalidade que produz o mal – a alma do parricida, o traidor, o egoísta... Mas deixe que um grande artista consiga apropriar-se dessa feiúra. Imediatamente ele a transfigura com um toque de sua varinha mágica, ele a transforma em beleza” (A. Rodin, 1911).
Patrícia Turtelli Maronezi
Rua Maria José, 5-36, Bauru, SP
Fone: (14) 3018-9348/ (14) 3227-6558
Rua Maria José, 5-36, Bauru, SP
Fone: (14) 3018-9348/ (14) 3227-6558
Marcadores: arte, paixao, psicanalise
As horas
Neste filme experimentamos uma intersecção de estórias fictícias e da biografia de Virginia Woolf. Enquanto Virginia escreve a estória, Laura reage à estória e suas ações influenciarão a historia de Clarissa.Percebemos que existe uma identificação entre as personagens, o que nos faz pensar na universalidade de algumas angústias e sentimentos.
Interessante o titulo do filme, “As horas”. No caso de Virginia e Laura parece dizer sobre o enfrentamento dos depressivos com relação ao tempo. Para o depressivo é difícil viver o presente, também difícil o movimento, as mudanças tão naturais a vida e ao tempo. O depressivo paralisa o movimento e o tempo, como se nada valesse a pena.
Virginia Woolf nos traz uma biografia permeada de situações traumáticas. Sofreu abuso sexual na infância por um irmão mais velho. Perdeu a mãe e dois irmãos numa idade muito precoce. Desde criade feio, em parte pode tornar-se grande beleza. Chamamos de feio o que é informe, insano, que sugere doença, sofrimento, destruição, o que é contrario à regularidade – o sinal da saúde... Chamamos também de feio o imoral, o vicioso, o criminoso e toda anormalidade que produz o mal – a alma do parricida, o traidor, o egoísta... Mas deixe que um grande artista consiga apropriar-se dessa feiúra. Imediatamente ele a transfigura com um toque de sua varinha mágica, ele a transforma em beleza” (A. Rodin, 1911).
Patrícia Turtelli Maronezi
Rua Maria José, 5-36, Bauru, SP
Fone: (14) 3018-9348/ (14) 3227-6558
Rua Maria José, 5-36, Bauru, SP
Fone: (14) 3018-9348/ (14) 3227-6558
Marcadores: arte, paixao, psicanalise
As horas
nça mostra-se uma pessoa angustiada, o que nos faz pensar também na influencia do fator constitucional, juntamente com sua historia de vida, para a formação de sua personalidade e do transtorno emocional que a acompanhará ao longo de sua vida (transtorno bipolar).
Durante os períodos depressivos Virgínia sofria de alucinações auditivas (“você não vale nada”), insônia, inapetência, perda de memória, fortes dores de cabeça, também se descontrolava ofendendo pessoas queridas. A fase depressiva era intensamente sofrida e angustiante. As duas tentativas anteriores de suicídio tiveram intenção de aliviar a dor emocional de Virginia e dos familiares (especialmente do marido por quem demonstrava grande afeição e sentimento de culpa por seus colapsos). Observamos que seus cuidados pessoais, roupas e higiene são ligeiramente precários e o olhar é vazio, sendo este o grande drama do depressivo, a ausência de sentido para a própria vida.
Nos períodos de melhora, ou de euforia, Virginia escreve bastante e torna-se comunicativa, ligando-se as pessoas e vinculando-se a vida.
O suicida tenta liquidar a parte da personalidade que sofre, que o culpa, que dessignifica a vida. Uma pesquisa aponta que 95% de pessoas que cometem suicídio passaram por perda de familiares próximos. Sendo que 75% destes enfrentaram a morte dessas pessoas antes da adolescência. A psicanálise postula uma idéia de que o suicida sente culpa pelo objeto morto e identifica-se com este na medida em que segue o mesmo caminho. Sendo assim a elaboração normal do luto da criança fica comprometida. Os sentimentos de culpa, raiva, ressentimento pelo abandono confundem a criança fazendo com que haja pouco discernimento da realidade interna e externa. É como se o suicida carregasse dentro de si objetos mortos, vingativos. Identificando-se com estes a ponto de cometer o ato suicida.
A personagem de Laura Brown revela uma mulher insatisfeita com a própria vida, deslocada, incapaz de colocar sentido e obter satisfação dos seus afazeres e papeis. Forma uma parceria com o filho Richard onde o uso da dupla mensagem é constante. Enquanto sua fala é amorosa e realista, a expressão facial e não verbal é de uma forte angustia e desespero. Laura também está grávida do segundo filho, período que, sabemos, pode ser vivido de forma ambivalente e conflituosa e também desencadear transtornos emocionais. Richard é uma criança que não pode brincar e ater-se ao seu próprio mundo num narcisismo de vida. Precisa cuidar e vigiar a mãe, que inconscientemente é sentida como frágil, inconsistente. Num momento em que o egocentrismo é natural e precisa acontecer, a criança não pode se investir e nem ser investida afetivamente pela mãe, precisando inverter esse processo o que resulta numa ferida narcísica. A pulsão de morte não é falada, mas é absolutamente sentida por esta dupla.
Quando adulto Richard contrai AIDS, mergulha numa profunda depressão e comete suicídio. Podemos pensar na identificação e na introjeção do objeto mãe que esta permeado de morte e autodestruição (numa cena, a mãe o deixa com a vizinha para ir a um hotel cometer suicídio mas desiste e volta para a família).
Richard vive com Clarissa uma repetição da relação mãe e filho, onde também vive somente para agradá-la.
A cena do suicídio é como uma repetição do passado no presente. Porem nesta cena Richard passa a viver ativamente o que quando criança experimentou de forma passiva. Ele comete suicídio na frente de Clarissa. É como se procurasse uma vingança e redenção de sua dor, identificando Clarissa como sua mãe.
Clarissa é comparada com Mrs. Dalloway (personagem do livro de Virgínia). Embora aparente muita alegria e vida, internamente é triste e angustiada. No entanto, é a mais adaptada e a que possui mais recursos de vida. Cuida de Richard diariamente, o que confere sentido a sua vida.
Durante os períodos depressivos Virgínia sofria de alucinações auditivas (“você não vale nada”), insônia, inapetência, perda de memória, fortes dores de cabeça, também se descontrolava ofendendo pessoas queridas. A fase depressiva era intensamente sofrida e angustiante. As duas tentativas anteriores de suicídio tiveram intenção de aliviar a dor emocional de Virginia e dos familiares (especialmente do marido por quem demonstrava grande afeição e sentimento de culpa por seus colapsos). Observamos que seus cuidados pessoais, roupas e higiene são ligeiramente precários e o olhar é vazio, sendo este o grande drama do depressivo, a ausência de sentido para a própria vida.
Nos períodos de melhora, ou de euforia, Virginia escreve bastante e torna-se comunicativa, ligando-se as pessoas e vinculando-se a vida.
O suicida tenta liquidar a parte da personalidade que sofre, que o culpa, que dessignifica a vida. Uma pesquisa aponta que 95% de pessoas que cometem suicídio passaram por perda de familiares próximos. Sendo que 75% destes enfrentaram a morte dessas pessoas antes da adolescência. A psicanálise postula uma idéia de que o suicida sente culpa pelo objeto morto e identifica-se com este na medida em que segue o mesmo caminho. Sendo assim a elaboração normal do luto da criança fica comprometida. Os sentimentos de culpa, raiva, ressentimento pelo abandono confundem a criança fazendo com que haja pouco discernimento da realidade interna e externa. É como se o suicida carregasse dentro de si objetos mortos, vingativos. Identificando-se com estes a ponto de cometer o ato suicida.
A personagem de Laura Brown revela uma mulher insatisfeita com a própria vida, deslocada, incapaz de colocar sentido e obter satisfação dos seus afazeres e papeis. Forma uma parceria com o filho Richard onde o uso da dupla mensagem é constante. Enquanto sua fala é amorosa e realista, a expressão facial e não verbal é de uma forte angustia e desespero. Laura também está grávida do segundo filho, período que, sabemos, pode ser vivido de forma ambivalente e conflituosa e também desencadear transtornos emocionais. Richard é uma criança que não pode brincar e ater-se ao seu próprio mundo num narcisismo de vida. Precisa cuidar e vigiar a mãe, que inconscientemente é sentida como frágil, inconsistente. Num momento em que o egocentrismo é natural e precisa acontecer, a criança não pode se investir e nem ser investida afetivamente pela mãe, precisando inverter esse processo o que resulta numa ferida narcísica. A pulsão de morte não é falada, mas é absolutamente sentida por esta dupla.
Quando adulto Richard contrai AIDS, mergulha numa profunda depressão e comete suicídio. Podemos pensar na identificação e na introjeção do objeto mãe que esta permeado de morte e autodestruição (numa cena, a mãe o deixa com a vizinha para ir a um hotel cometer suicídio mas desiste e volta para a família).
Richard vive com Clarissa uma repetição da relação mãe e filho, onde também vive somente para agradá-la.
A cena do suicídio é como uma repetição do passado no presente. Porem nesta cena Richard passa a viver ativamente o que quando criança experimentou de forma passiva. Ele comete suicídio na frente de Clarissa. É como se procurasse uma vingança e redenção de sua dor, identificando Clarissa como sua mãe.
Clarissa é comparada com Mrs. Dalloway (personagem do livro de Virgínia). Embora aparente muita alegria e vida, internamente é triste e angustiada. No entanto, é a mais adaptada e a que possui mais recursos de vida. Cuida de Richard diariamente, o que confere sentido a sua vida.
Patrícia Turtelli Maronezi
Rua Maria José, 5-36, Bauru, SP
Fone: (14) 3018-9348/(14) 3227-6558
Rua Maria José, 5-36, Bauru, SP
Fone: (14) 3018-9348/(14) 3227-6558
Marcadores: depressao, psicanalise, suicidio
03 Março, 2010
Billy Elliot
Este é um filme que, particularmente, julgo especial. É belo, mas ao mesmo tempo profundo. Apresenta o sofrimento humano, mas sem nos tirar a esperança de poder ter uma vida com sentido. Combina as expressões humanas mais primitivas e as mais sublimes e sublimadas, como a arte, a dança.
O filme começa com uma música que diz: “Eu dançava no ventre...”, e no fundo vemos um garoto com uma fantástica expressão pulando na cama. Trata-se do protagonista Billy Elliot, que para escapar da dureza de sua vida, entra num outro mundo, induzido pela música e pela dança. Através deste movimento que chamamos de criatividade, o garoto consegue romper com a sintomática dinâmica familiar. No momento que dança, canta, exercita-se motoramente (o que aparentemente pode parecer desengonçado e engraçado), está criando outro mundo, onde tudo é possível, e onde o mundo interno pode vir à tona de forma a procurar uma transformação e um sentido.
Billy e sua família atravessam juntos uma crise. Após a morte da mãe percebemos o desamparo familiar e a depressão subjacente (especialmente do pai que a manifesta através de agressividade). Adicionado a isso eles enfrentam uma crise financeira e intensa frustração profissional (a greve dos mineiros).
A relação de Billy com o irmão é conturbada, violenta. O irmão é rude, inacessível, agressivo. Não se vincula com Billy pelo amor, mas pelo desprezo e raiva. Parte da frustração e da agressividade do irmão é canalizada, deslocada e projetada na greve (que se torna sua razão de existência). A mãe era o elemento que permitia e cultivava o belo, o transformado, contido e calmo (a mãe apreciava e tocava piano). Com sua morte, a família fica sobrecarregada de emoções sem transformação e significado, tendo como mecanismo de defesa disponível
O filme começa com uma música que diz: “Eu dançava no ventre...”, e no fundo vemos um garoto com uma fantástica expressão pulando na cama. Trata-se do protagonista Billy Elliot, que para escapar da dureza de sua vida, entra num outro mundo, induzido pela música e pela dança. Através deste movimento que chamamos de criatividade, o garoto consegue romper com a sintomática dinâmica familiar. No momento que dança, canta, exercita-se motoramente (o que aparentemente pode parecer desengonçado e engraçado), está criando outro mundo, onde tudo é possível, e onde o mundo interno pode vir à tona de forma a procurar uma transformação e um sentido.
Billy e sua família atravessam juntos uma crise. Após a morte da mãe percebemos o desamparo familiar e a depressão subjacente (especialmente do pai que a manifesta através de agressividade). Adicionado a isso eles enfrentam uma crise financeira e intensa frustração profissional (a greve dos mineiros).
A relação de Billy com o irmão é conturbada, violenta. O irmão é rude, inacessível, agressivo. Não se vincula com Billy pelo amor, mas pelo desprezo e raiva. Parte da frustração e da agressividade do irmão é canalizada, deslocada e projetada na greve (que se torna sua razão de existência). A mãe era o elemento que permitia e cultivava o belo, o transformado, contido e calmo (a mãe apreciava e tocava piano). Com sua morte, a família fica sobrecarregada de emoções sem transformação e significado, tendo como mecanismo de defesa disponível
03 Março, 2010
Billy Elliot
a agressividade, o acting out e no caso de Billy o distanciamento da realidade e a incapacidade de identificação com seu pai e irmão (figuras masculinas importantes).
Billy é impelido a praticar boxe, porem mostra-se sem habilidade e sem motivação. Chama sua atenção a aula de ballet, a musica e a calma e harmonia que os gestos (passos) são realizados. O pai e o treinador querem que Billy acione seu lado agressivo através da luta. Querem que ele seja competitivo, corajoso e rude. Billy, no entanto, rejeita essa identidade. Parece estar farto de pancada, violência, descarga e dor. Assim, cada vez mais ele é atraído para o ballet.
Interessante que nas aulas de ballet é como se Billy encontrasse e recuperasse a mãe perdida. O piano da mãe está também no ballet, as mulheres (a professora é uma pessoa investida e significativa para Billy), a leveza, a beleza, suavidade e harmonia da dança.
A professora percebe coisas boas em Billy, potencialidades latentes. A família, com exceção da avó, não faz mais que gritar, desvalorizar e pressionar Billy. Diríamos que sua parte de vida o impele a ir ficando nas aulas de Ballet. Mas não sejamos ingênuos! A dança também requer certa dose de agressividade e de força, vigor, explosão e descarga. Porem tudo isso é feito de forma controlada, artística, sublimada. O que evita os danos e prejuízos que a simples atuação da agressividade pode provocar. Este mecanismo pode ser observado nas varias cenas do filme onde Billy tomado pelas fortes emoções (sobretudo de raiva) começa a dançar e a sapatear freneticamente até conseguir se acalmar.
Fred Astaire (famoso Dançarino norte americano) era o preferido de sua mãe. Quando se torna bailarino Billy tenta ser o preferido de sua mãe também. Uma maneira de se aproximar, de sentir-se seguro. Já que não conseguiria ser o preferido do pai sem ferir a própria autenticidade de seu eu (embora no final do filme isso mude).
Billy e a avó são os únicos que aparecem visitando o tumulo da mãe. Podemos pensar que são os que mais se aproximam da elaboração da perda e da dor que isto causa. No entanto, esta dor quando sofrida pode ser também abandonada e renegada ao passado (enterra-se a dor junto com os mortos). A partir deste vértice podemos dizer que Billy é o mais saudável, evoluído, pois consegue suportar as dores da vida sem desintegrar-se. O irmão e o pai não realizam este luto, haja visto que a dor não é sentida mas atuada (a agressividade incontida, muito presente nesses dois personagens).
Uma cena muito interessante é a qual o pai e o irmão estão na greve e Billy está na aula de ballet. Enquanto os primeiros vivenciam uma situação de extrema dureza, revolta e agressividade, Billy experimenta uma situação de sonho e criatividade na aula de ballet. Um ponto importante: Billy era um garoto púbere, precisava do sonho, do transformado, do escape, até como forma de proteger seu aparelho psíquico de situações carregadas de angustias impensáveis que poderiam ser sentidas como traumáticas.
O pai e o irmão de Billy encontram-se também numa situação de sofrimento emocional. Assim sendo não podem funcionar adequadamente como continentes para as angustias do menino. Desta forma Billy está só e conta com sua mente para processar as experiências e angustias (tem também a participação do amigo e da professora).
A professora estabelece com Billy um vinculo seguro, hierárquico. Ela é quem cuida dele, quem o ensina. Não é um vinculo onde as projeções são invertidas e ele tem que cuidar e metabolizar o que vem de quem supostamente deveria cuidar dele, como o pai e o irmão mais velho (sabemos que tais inversões são bastante prejudiciais na formação e na qualidade do psiquismo).
Na cena que a professora pede para Billy levar objetos que possam gerar idéias para uma dança ele leva a carta que a mãe deixou para ele. Billy decorou a carta, da mesma maneira como decorou a mãe, ou seja, gravou-a dentro de si, como um objeto bom, permanente, confiável e tranqüilizador.
O novo, o diferente que Billy traz com a dança modifica completamente o ambiente familiar. A principio é muito criticado e perseguido. Depois, conforme o pai e o irmão percebem que ele tem talento, a idéia dele ser bailarino começa a ser acolhida. Mas para que isso aconteça Billy precisa enfrentar o pai, o irmão, defendendo seu verdadeiro self (eu). É necessário coragem e mente própria para não confundir-se com os desejos e expectativas do pai (não-eu), e até mesmo para não corresponder aos desejos sexuais do amigo homossexual. Billy sabe quem é, não permite que as projeções provenientes dos objetos externos sejam eficazes e o despersonalizem.
É belíssima a cena em que o pai rompe com a greve para pagar a viagem de Billy para fazer a audição de ballet em Londres. É como se ao fazer isso o pai estivesse rompendo com a depressão, a esterilidade de sua vida. Abrindo-se para o novo, o movimento, o mundo onde as coisas também podem ser belas e harmônicas. Billy traz a mudança. Pela primeira vez a família sai daquela pequena cidade. Interessante a cena onde Billy e o pai estão na academia do Royal ballet. O pai fica olhando admirado, sensibiliza-se com aquele outro mundo, tão diferente de seu ambiente mais comum, a mina de carvão.
No final do filme Billy e o pai estão no cemitério. Foram visitar o tumulo da mãe. Nesta cena eles brincam de forma amorosa, e o vinculo parental pode ser refeito e reparado. Num vértice emocional podemos nos dizer saudáveis quando possuímos internalizado um pai e uma mãe bons, integrados. Onde os lados positivos e negativos, defeitos e qualidades possam estar lado a lado e onde o amor, o perdão e as experiências positivas possam triunfar sobre o ódio e o ressentimento. Nesta cena do cemitério, podemos pensar em Billy com este casal positivo e na libertação que isso gera na mente, no corpo e na vida.
Billy é impelido a praticar boxe, porem mostra-se sem habilidade e sem motivação. Chama sua atenção a aula de ballet, a musica e a calma e harmonia que os gestos (passos) são realizados. O pai e o treinador querem que Billy acione seu lado agressivo através da luta. Querem que ele seja competitivo, corajoso e rude. Billy, no entanto, rejeita essa identidade. Parece estar farto de pancada, violência, descarga e dor. Assim, cada vez mais ele é atraído para o ballet.
Interessante que nas aulas de ballet é como se Billy encontrasse e recuperasse a mãe perdida. O piano da mãe está também no ballet, as mulheres (a professora é uma pessoa investida e significativa para Billy), a leveza, a beleza, suavidade e harmonia da dança.
A professora percebe coisas boas em Billy, potencialidades latentes. A família, com exceção da avó, não faz mais que gritar, desvalorizar e pressionar Billy. Diríamos que sua parte de vida o impele a ir ficando nas aulas de Ballet. Mas não sejamos ingênuos! A dança também requer certa dose de agressividade e de força, vigor, explosão e descarga. Porem tudo isso é feito de forma controlada, artística, sublimada. O que evita os danos e prejuízos que a simples atuação da agressividade pode provocar. Este mecanismo pode ser observado nas varias cenas do filme onde Billy tomado pelas fortes emoções (sobretudo de raiva) começa a dançar e a sapatear freneticamente até conseguir se acalmar.
Fred Astaire (famoso Dançarino norte americano) era o preferido de sua mãe. Quando se torna bailarino Billy tenta ser o preferido de sua mãe também. Uma maneira de se aproximar, de sentir-se seguro. Já que não conseguiria ser o preferido do pai sem ferir a própria autenticidade de seu eu (embora no final do filme isso mude).
Billy e a avó são os únicos que aparecem visitando o tumulo da mãe. Podemos pensar que são os que mais se aproximam da elaboração da perda e da dor que isto causa. No entanto, esta dor quando sofrida pode ser também abandonada e renegada ao passado (enterra-se a dor junto com os mortos). A partir deste vértice podemos dizer que Billy é o mais saudável, evoluído, pois consegue suportar as dores da vida sem desintegrar-se. O irmão e o pai não realizam este luto, haja visto que a dor não é sentida mas atuada (a agressividade incontida, muito presente nesses dois personagens).
Uma cena muito interessante é a qual o pai e o irmão estão na greve e Billy está na aula de ballet. Enquanto os primeiros vivenciam uma situação de extrema dureza, revolta e agressividade, Billy experimenta uma situação de sonho e criatividade na aula de ballet. Um ponto importante: Billy era um garoto púbere, precisava do sonho, do transformado, do escape, até como forma de proteger seu aparelho psíquico de situações carregadas de angustias impensáveis que poderiam ser sentidas como traumáticas.
O pai e o irmão de Billy encontram-se também numa situação de sofrimento emocional. Assim sendo não podem funcionar adequadamente como continentes para as angustias do menino. Desta forma Billy está só e conta com sua mente para processar as experiências e angustias (tem também a participação do amigo e da professora).
A professora estabelece com Billy um vinculo seguro, hierárquico. Ela é quem cuida dele, quem o ensina. Não é um vinculo onde as projeções são invertidas e ele tem que cuidar e metabolizar o que vem de quem supostamente deveria cuidar dele, como o pai e o irmão mais velho (sabemos que tais inversões são bastante prejudiciais na formação e na qualidade do psiquismo).
Na cena que a professora pede para Billy levar objetos que possam gerar idéias para uma dança ele leva a carta que a mãe deixou para ele. Billy decorou a carta, da mesma maneira como decorou a mãe, ou seja, gravou-a dentro de si, como um objeto bom, permanente, confiável e tranqüilizador.
O novo, o diferente que Billy traz com a dança modifica completamente o ambiente familiar. A principio é muito criticado e perseguido. Depois, conforme o pai e o irmão percebem que ele tem talento, a idéia dele ser bailarino começa a ser acolhida. Mas para que isso aconteça Billy precisa enfrentar o pai, o irmão, defendendo seu verdadeiro self (eu). É necessário coragem e mente própria para não confundir-se com os desejos e expectativas do pai (não-eu), e até mesmo para não corresponder aos desejos sexuais do amigo homossexual. Billy sabe quem é, não permite que as projeções provenientes dos objetos externos sejam eficazes e o despersonalizem.
É belíssima a cena em que o pai rompe com a greve para pagar a viagem de Billy para fazer a audição de ballet em Londres. É como se ao fazer isso o pai estivesse rompendo com a depressão, a esterilidade de sua vida. Abrindo-se para o novo, o movimento, o mundo onde as coisas também podem ser belas e harmônicas. Billy traz a mudança. Pela primeira vez a família sai daquela pequena cidade. Interessante a cena onde Billy e o pai estão na academia do Royal ballet. O pai fica olhando admirado, sensibiliza-se com aquele outro mundo, tão diferente de seu ambiente mais comum, a mina de carvão.
No final do filme Billy e o pai estão no cemitério. Foram visitar o tumulo da mãe. Nesta cena eles brincam de forma amorosa, e o vinculo parental pode ser refeito e reparado. Num vértice emocional podemos nos dizer saudáveis quando possuímos internalizado um pai e uma mãe bons, integrados. Onde os lados positivos e negativos, defeitos e qualidades possam estar lado a lado e onde o amor, o perdão e as experiências positivas possam triunfar sobre o ódio e o ressentimento. Nesta cena do cemitério, podemos pensar em Billy com este casal positivo e na libertação que isso gera na mente, no corpo e na vida.
Patrícia Turtelli Maronezi
Rua Maria José, 5-36, Bauru, SP
Fone: (14) 3018-9348/ (14) 3227-6558
Marcadores: dancas, psicanalise, transformacoes
Patrícia Turtelli Maronezi
Rua Maria José, 5-36, Bauru, SP
Fone: (14) 3018-9348/ (14) 3227-6558
Marcadores: dancas, psicanalise, transformacoes
07 Maio, 2007
Cinema e Psicanalise: objetivo
Sigmund Freud, o fundador da Psicanálise, costumava utilizar referenciais artísticos na construção de seus artigos. Ele acreditava que uma obra de arte ia muito além da compreensão intelectual, despertando no observador uma atitude emocional. A Psicanálise se encarrega da investigação dos fenômenos psíquicos, enquanto que a arte pode nos servir como forma de observação e análise desses fenômenos. Considerando o cinema como uma forma de representação artística, criamos esse espaço de reflexão e análise de algumas obras cinematográficas através do referencial psicanalítico.Marcadores: cinema, Freud, psicanalise

