O fabuloso destino de Amelie Poulin
Podemos iniciar esta analise comentando o titulo do filme. O fabuloso destino de Amelie Poulin. Num primeiro momento pensei que realmente a vida de Amelie sofre transformações e o final do filme é fabuloso, temos a protagonista muito feliz e realizada com seu amor Nino. Então nesta primeira perspectiva o fabuloso destino de A. P. teria como sentido a questão de um desenrolar grandioso, entusiasmante, belo. Num segundo momento pensei em fabuloso como proveniente de fábula, fantasia, imaginação. E é ai que entramos no cerne da personalidade desta adorável e enigmática personagem. Amelie é uma moça com serias dificuldades de vinculação, afetividade e entrega. Porém, em sua vida de fantasia tudo é possível, e tudo realmente acontece. O problema é que “tudo”que deve e precisa acontecer fica somente no mundo de fantasia e fábula, ou seja, na imaginação de Amelie.O narrador do filme, aí também outro aspecto das fábulas, alguém que conta a estória, descreve vários fatos simultâneos (uns cotidianos e outros muito importantes), particularidades das pessoas, seus hábitos mais íntimos e excêntricos. Fala também sobre as situações da vida, da morte e das trivialidades do cotidiano. Interessante notar que neste descrever o narrador vai implicitamente nos colocando a idéia de subjetividade.
Amelie foi uma criança solitária, brincava sozinha, utilizava intensamente sua imaginação e fantasia (até como um recurso contra um possível vazio e depressão). Curiosa, criativa, sublimava suas necessidades de contato e afeto imaginando, criando hipóteses que a auxiliavam a dar sentido ao mundo que a rodeava.
O pai de Amelie parece desafetado, robótico, distante e com marcante personalidade obsessiva. Após a morte da esposa essas características intensificam-se e o pai torna-se ainda mais desconectado do mundo externo e de Amelie.
A mãe, uma mulher nervosa, áspera, incontinente. Também com muitas dificuldades em conectar-se afetivamente, perceber e atender as necessidades emocionais da filha.
Amelie ganha de presente da mãe uma maquina fotográfica. Sentindo-se muito gratificada pass /* Feeds ----------------------------------------------- */ #blogfeeds { } #postfeeds { }
Cinema e Psicanálise
06 Março, 2010
O fabuloso destino de Amelie Poulin
a a registrar o mundo a sua volta. É sua maneira de se ligar a esse mundo, uma forma primitiva de contato, onde a necessidade concreta da ligação ainda é premente (precisa registrar tudo em fotos, senão corre o risco de não reter a experiência afetiva). Assim estabelece com a realidade uma relação ativa, fotografando e explorando o ambiente. O acidente de carro pelo qual é indevidamente culpada a faz frear sua atividade, curiosidade e exploração. É como se sentisse que a atividade, o estar viva no mundo e interagir com este fosse altamente perigoso e de conseqüências catastróficas (interessante a cena onde ela assista a TV e fica aterrorizada ao ver todas as catástrofes que sua “maquina” causou).
A perda da mãe ocorreu de forma traumática. O trauma é proveniente do fator surpresa da situação (a mãe é esmagada por uma suicida) e do excesso de estímulos que a mente precisa dar conta e elaborar. Amelie ainda é muito imatura para conseguir discernir uma situação onde mundo interno e externo se confundem, onde a fantasia e a realidade ainda são muito misturadas. Assim, antes da mãe ser morta elas estavam dentro da igreja para que Amelie ganhasse um irmãozinho. Sabemos como as crianças são ambivalentes em relação aos irmãos, e as fantasias agressivas que são dirigidas em relação ao bebê, a mãe, e também ao pai. Este fator pode ter contribuído para agravar a elaboração da morte da mãe por Amelie. Instalando um possível sentimento de culpa inconsciente pelas fantasias agressivas. Sabemos que o sentimento de culpa é um poderoso inibidor de toda atividade pulsional. Penso que parte da paralisação e retraimento da protagonista possui relação com esses fatos de sua historia de vida. Sua experiência emocional significou psiquicamente que as relações, o sentir e o expressar são altamente perigosos e geradores de conseqüências dramáticas e dolorosas. Uma solução de compromisso para tal significado e conflito seria então o que a protagonista fez: paralisa-se a vida emocional, congela-se os afetos e assim ninguém corre risco, nem ela mesma, nem os outros.
Bem, após a morte de sua mãe, Amelie intensifica ainda mais suas características esquizóides. Passando a se comportar como um autômato, com poucas expressões espontâneas e quase nenhuma ligação com outras pessoas.
Amelie gosta de observar os outros, se interessa sobre suas vidas. Existe um aspecto voyerista na personagem. Viver a vida alheia é mais interessante e oferece menos riscos do que viver a própria. Olhando predominantemente para fora ela se evade de olhar para si mesma, pois isso seria desalentador.
É interessante que ela experimenta a emoção através do outro. Tanto o amor, a gratificação, a excitação sexual como a raiva e o medo. É um tipo de identificação projetiva exitosa, porque a personagem cinde (separa dentro de si) uma parte do próprio eu (neste caso a capacidade de sentir e os conseqüentes afetos) e mobiliza o outro para que ele sinta o que ela ainda não pode sentir. É claro que este mecanismo de defesa embora defenda o ego dos perigos das emoções também esvazia a experiência na medida de que retira a afetividade e o sentido da própria vida.
O autômato é aquele que não consegue se conectar ao próprio mundo interno, tampouco ao externo e as pessoas. Amelie funciona de forma automata, sendo isso representado nos seus comportamentos e inclusive facialmente. Amelie tem uma expressão artificial, parece uma boneca de cera.
O personagem do homem de vidro é interessantíssimo. Ele representa a parte esquizóide de Amelie que sofre, é frágil e se fecha num mundo próprio, tendo a vida conseqüentemente empobrecida. É um talentoso artista, mas que não cria e sim reproduz, copia (de forma belíssima, é verdade) os quadros de um genial pintor (Renoir). Desta maneira pinta as festas, a vida, o movimento, mas não vive a festa, a vida, tampouco se movimenta. Tem um esqueleto de vidro (uma mente que de tão frágil pode quebrar-se?). Não possui constituição física nem mental para enfrentar a vida e a realidade (com seus inevitáveis percalços).
É bonito o desenrolar do filme onde ele e Amelie vão, um através do outro, experimentando como poderia ser viver diferente, livre, sem medo. No final do filme o homem de vidro pinta um quadro diferente, original, uma criação sua. O desenvolvimento da personalidade culmina numa existência mais autêntica verdadeira e livre. O homem saudável é aquele que, levando em consideração a sua constituição, pode ser o que é.
A transformação de Amelie se inicia no dia da morte da princesa. Penso a princesa como a parte infantil, fantasiosa e esquizóide de Amelie (afinal princesas vivem em castelos, protegidas e isoladas do mundo!). Ela encontra a caixa (como se fosse o tesouro, o potencial, o inconsciente, a parte cindida de sua própria personalidade) e decide ajudar os outros a partir de então. Este movimento é um pretexto para sair do isolamento, ainda que a razão para isso precise estar no outro (novamente aqui a identificação projetiva).
É preciso enfrentar o medo, sair do conhecido, do estável para crescer. A cena final que Amelie passeia de moto por Paris junto com Nino, expressa esta idéia do movimento da vida e da ligação entre as pessoas. Neste momento reparamos como a expressão facial e o sorriso da protagonista se humaniza e ela pode experimentar emocionalmente o que significa sentir-se viva.
A perda da mãe ocorreu de forma traumática. O trauma é proveniente do fator surpresa da situação (a mãe é esmagada por uma suicida) e do excesso de estímulos que a mente precisa dar conta e elaborar. Amelie ainda é muito imatura para conseguir discernir uma situação onde mundo interno e externo se confundem, onde a fantasia e a realidade ainda são muito misturadas. Assim, antes da mãe ser morta elas estavam dentro da igreja para que Amelie ganhasse um irmãozinho. Sabemos como as crianças são ambivalentes em relação aos irmãos, e as fantasias agressivas que são dirigidas em relação ao bebê, a mãe, e também ao pai. Este fator pode ter contribuído para agravar a elaboração da morte da mãe por Amelie. Instalando um possível sentimento de culpa inconsciente pelas fantasias agressivas. Sabemos que o sentimento de culpa é um poderoso inibidor de toda atividade pulsional. Penso que parte da paralisação e retraimento da protagonista possui relação com esses fatos de sua historia de vida. Sua experiência emocional significou psiquicamente que as relações, o sentir e o expressar são altamente perigosos e geradores de conseqüências dramáticas e dolorosas. Uma solução de compromisso para tal significado e conflito seria então o que a protagonista fez: paralisa-se a vida emocional, congela-se os afetos e assim ninguém corre risco, nem ela mesma, nem os outros.
Bem, após a morte de sua mãe, Amelie intensifica ainda mais suas características esquizóides. Passando a se comportar como um autômato, com poucas expressões espontâneas e quase nenhuma ligação com outras pessoas.
Amelie gosta de observar os outros, se interessa sobre suas vidas. Existe um aspecto voyerista na personagem. Viver a vida alheia é mais interessante e oferece menos riscos do que viver a própria. Olhando predominantemente para fora ela se evade de olhar para si mesma, pois isso seria desalentador.
É interessante que ela experimenta a emoção através do outro. Tanto o amor, a gratificação, a excitação sexual como a raiva e o medo. É um tipo de identificação projetiva exitosa, porque a personagem cinde (separa dentro de si) uma parte do próprio eu (neste caso a capacidade de sentir e os conseqüentes afetos) e mobiliza o outro para que ele sinta o que ela ainda não pode sentir. É claro que este mecanismo de defesa embora defenda o ego dos perigos das emoções também esvazia a experiência na medida de que retira a afetividade e o sentido da própria vida.
O autômato é aquele que não consegue se conectar ao próprio mundo interno, tampouco ao externo e as pessoas. Amelie funciona de forma automata, sendo isso representado nos seus comportamentos e inclusive facialmente. Amelie tem uma expressão artificial, parece uma boneca de cera.
O personagem do homem de vidro é interessantíssimo. Ele representa a parte esquizóide de Amelie que sofre, é frágil e se fecha num mundo próprio, tendo a vida conseqüentemente empobrecida. É um talentoso artista, mas que não cria e sim reproduz, copia (de forma belíssima, é verdade) os quadros de um genial pintor (Renoir). Desta maneira pinta as festas, a vida, o movimento, mas não vive a festa, a vida, tampouco se movimenta. Tem um esqueleto de vidro (uma mente que de tão frágil pode quebrar-se?). Não possui constituição física nem mental para enfrentar a vida e a realidade (com seus inevitáveis percalços).
É bonito o desenrolar do filme onde ele e Amelie vão, um através do outro, experimentando como poderia ser viver diferente, livre, sem medo. No final do filme o homem de vidro pinta um quadro diferente, original, uma criação sua. O desenvolvimento da personalidade culmina numa existência mais autêntica verdadeira e livre. O homem saudável é aquele que, levando em consideração a sua constituição, pode ser o que é.
A transformação de Amelie se inicia no dia da morte da princesa. Penso a princesa como a parte infantil, fantasiosa e esquizóide de Amelie (afinal princesas vivem em castelos, protegidas e isoladas do mundo!). Ela encontra a caixa (como se fosse o tesouro, o potencial, o inconsciente, a parte cindida de sua própria personalidade) e decide ajudar os outros a partir de então. Este movimento é um pretexto para sair do isolamento, ainda que a razão para isso precise estar no outro (novamente aqui a identificação projetiva).
É preciso enfrentar o medo, sair do conhecido, do estável para crescer. A cena final que Amelie passeia de moto por Paris junto com Nino, expressa esta idéia do movimento da vida e da ligação entre as pessoas. Neste momento reparamos como a expressão facial e o sorriso da protagonista se humaniza e ela pode experimentar emocionalmente o que significa sentir-se viva.
Patrícia Turtelli Maronezi
Rua Maria José, 5-36, Bauru, SP
Fone: (14) 3018-9348/ (14) 3227-6558
Marcadores: fantasia, psicanalise, vinculos afetivos
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